Problemas de Logística e Armazenamento no Brasil

QUADRO ATUAL

A produção brasileira de grãos entre as safras de 2011 a 2013 registrou um crescimento de 7,4% ao ano. Os investimentos em armazéns e silos, por sua vez, tiveram um avanço de apenas 1,8%. Em consequência, nas safras 2013/2014, a capacidade de armazenagem recebeu 145,5 milhões de toneladas, correspondendo a, aproximadamente, 78% da produção efetivamente colhida. No Norte e Nordeste do País, a capacidade estática é ainda menor, eis que a produção corresponde a algo em torno de 54% do volume de grãos efetivamente produzidos.

Segundo estudos elaborados pela FAO[1], a atual capacidade estática de armazenagem no Brasil é inferior ao nível mínimo recomendado em cerca de 70 milhões de toneladas. Este montante não responde ao crescimento da produção agrícola recente e nem tão pouco às mudanças na distribuição geográfica.

A grande importância para o harmonioso escoamento da produção é a rede de armazenamento possuir grande capilaridade e adequada capacidade bem distribuída, diminuindo o congestionamento da cadeia de produção, e possibilitando a obtenção de melhores preços de venda, evitando as baixas cotações dos períodos de safra. Além disso, o fator mais importante é perspectiva de perdas decorrentes da armazenagem inadequada e deficiente, trazendo em seu bojo altos índices de contaminação dos produtos por fungos ou bactérias proveniente do excesso de umidade.

Como resultado desse déficit e para evitar perdas latentes, os principais produtos agrícolas passaram a ser controlados pelas tradings multinacionais de commodities. Tais corporações chegam a concentrar 60% da colheita, principalmente de soja e milho. Essas empresas participam de toda a cadeia estratégica de comercialização de grãos por possuir unidades próprias de armazenagem e transbordo nas principais regiões produtoras.

A relação com os produtores permitem que essas empresas também atuem como agentes financiadores da produção, seja na aquisição e fornecimento de insumos aos produtores, desde o plantio até a colheita, tendo como condições do financiamento a comercialização da produção exclusivamente com a própria trading. É como simultaneamente tirar de um bolso e colocar em outro, com mínimos riscos.

Tais empresas também utilizam negociação de contratos futuros, cujo preço de venda é definido no momento da efetivação da compra pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Em tal caso, habitualmente, o valor é fixado em um prazo muito próximo da colheita quando sua cotação encontra-se em baixa, condicionada à grande oferta momentânea.

Se de um lado essas empresas prestam um bom serviço ao produtor pela redução do risco e garantia da colocação da safra, por outro, diminuem as possibilidades de ganhos e negociação de melhores preços e condições de comercialização, como o caso da arbitragem de produção, cujos ganhos alavancam os ganhos dos produtores.

PERSPECTIVAS DE CRESCIMENTO

Estudo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)[2], projeta para a safra 2022-23 uma produção entre 222 e 275 milhões de toneladas. Se o cenário mais otimista e mais provável se confirmar (275 milhões), o crescimento significará quase 50% sobre os níveis atuais. A demanda por investimentos em armazenamento e silos deverão exigir investimentos cada vez mais expressivos no segmento, de maneira a evitar possíveis gargalos na infraestrutura logística.

A REGIÃO CENTRO-OESTE

Não obstante a safra apresentar um significativo crescimento histórico na região central do país de maneira consistente, também se constata um grande déficit de armazenagem na região. Considerando-se o índice recomendado pela FAO, há atualmente um déficit da ordem de 10,5 milhões de toneladas. Isso apesar de ter havido um grande avanço na capacidade de armazenamento em relação às demais regiões. Outrossim, a região centro-oeste necessitará, até 2023, de cerca de 175 milhões de toneladas adicionais de capacidade de armazenagem.

Também é fundamental aduzir que deve ser muito bem aquilatada a distribuição da infraestrutura de armazenamento, uma vez que os armazéns devem ser geograficamente bem distribuídos de acordo com o perfil de produção. Tal fato garante à região menor congestionamento da cadeia logística, reduzindo custos e melhorando o escoamento da produção.

A maioria dos estudos que resultaram no Plano Nacional de Armazenagem, divulgado pelo Plano-Safra 2013/2014[3], evidenciou que as maiores das discrepâncias foram identificadas nas regiões limítrofes à capital federal, no sudoeste goiano, no norte de Mato Grosso e no oeste da Bahia e ainda ao sul do Maranhão, no Piauí e em Tocantins.

DESCOMPASSO ENTRE PRODUÇÃO E ARMAZENAMENTO 2014/2023

Graos Projecao
Fonte: Centro de Estudos de Gestão Naval (CEGN).

As figuras acima retratam a dramática situação deficitária dos níveis de armazenamento destinado à produção agropecuária da região centro-oeste. Na figura à esquerda, cada asterisco vermelho revela a maior ou menor capacidade de armazenamento. Observa-se que em diversas localidades, a atual capacidade estática de armazenamento situa-se em torno de 7.500 mil toneladas. Este montante tende a evoluir para 20 milhões de toneladas nos próximos dez anos. Com consequência, Centro-Oeste necessitará, até 2023, de cerca de 175 milhões de toneladas adicionais de capacidade de armazenagem.

A REGIÃO MATOPIBA – MARANHÃO, TOCANTINS, PIAUÍ E BAHIA

Matopiba

A produção da região de MATOPIBA responde por mais de 8% da produção de grãos do país. O potencial de crescimento é considerado extraordinário. Pesquisa elaborada pelo IBGE em 2011 sobre o PIB municipal mostra que os municípios da região têm puxado o crescimento dos estados onde se localizam. Como consequência, o crescimento desses municípios supera dos respectivos estados em que se localizam, bem como da média brasileira. Em 2022-23, a região deve atingir uma produção de grãos de 18 milhões de toneladas. Deve ser levado em conta que a atividade impulsiona toda a cadeia econômica local, com reflexos imediatos na renda da comunidade.

CONCLUSÃO

As informações aqui trazidas revelam extraordinárias perspectivas em investimentos com apropriados e alvissareiros retornos financeiros. Acontece que, em um cenário promissor, os resultados das projeções do MAPA permitem constatar que o Brasil poderá abastecer anualmente o mercado interno em 200 milhões de brasileiros e gerar excedentes exportáveis para algo em torno de 200 países. O saldo é um mercado agrícola e pecuário interno forte e uma balança comercial que gera mais de US$ 100 bilhões a cada ano. Para cumprimento desses objetivos estratégicos altamente promissores, o armazenamento deve caminhar lado a lado com a produção. Há muito que fazer. O essencial nesse atual momento é arregaçar as mangas e investir consistentemente na superação e evitar que haja aumento desse déficit.

(*) Texto elaborado por SERGIO ARNOR VIEIRA – Mestre em contabilidade (UnB)

 

[1] A Fundação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

[2] Projeções do Agronegócio – Brasil, 2012/2013 – 2022/2023, disponível em http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/projecoes%20-%20versao%20atualizada.pdf.

[3] Foi instituído pela Portaria MAPA n° 379/2012, um Grupo de Trabalho com objetivo principal de elaboração do Plano Nacional de Armazenagem para ampliação da capacidade estática e melhoria do parque de armazenagem do país. Parte do resultado do trabalho foi contemplada no Plano Agrícola e Pecuário 2013/2014 como Programa de Construção e Ampliação de Armazéns – PCA, no qual o Governo Federal já disponibilizou R$ 5 bilhões, e disponibilizará ao longo dos próximos quatro anos o valor de R$ 20 bilhões em linha de crédito específica de financiamento para implantação, modernização e ampliação de unidades armazenadoras. As condições desta linha de crédito são juros de 4% ao ano com 15 anos para quitação, incluindo três anos de carência para iniciar a amortização do empréstimo.

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