Shadow Banking e as nossas economias

           A globalização é um conceito conhecido no ambiente do sistema financeiro desde meados do século XVIII, época em que já se percebia a interferência direta em um país de alguma prática ocorrida em outro, ainda que separados por oceanos e grandes distâncias. Barry Eichengreen, renomado economista e professor da Universidade de Berkeley, em seu livro “A Globalização do Capital”[1], demonstra que as alterações efetivadas pela autoridade monetária na Inglaterra, visando equilíbrio de contas internas, obrigatoriamente gerava a necessidade de equalização sistêmica pelos instrumentos de economia, imediatamente nos países próximos, e sucessivamente em terras mais remotas, em onda de movimentos assimilatórios.

            Desse tempo até a atualidade, como reação coletiva dos países aos acontecimentos off shore, a globalização tem se feito sentir com mais força em razão da velocidade das informações, incrementadas à razão exponencial de tempo real para ciência de um fato remoto. Com isso, as alterações provocadas por instrumentos financeiros em qualquer país, não se restringem aos limites de seu território, impondo reação imediata ao resto do mundo. Para complicar um pouco a situação, a dinâmica natural da inteiração financeira no planeta criou um ambiente que vive e cresce fora do controle formal do sistema bancário mundial, nominado Shadow Banking.

            De acordo com a definição do Financial Stability Board – FSB[2], Shadow Banking é “a intermediação de crédito envolvendo entidades e atividades fora do sistema bancário normal”, conceito também conhecido como Market-Based Financial. Esse fenômeno financeiro envolve diversas operações muito comuns no cotidiano dos negócios, entretanto tem uma característica muito importante que lhe empresta relevo, seu curso marginal à supervisão bancária.

            Esses acontecimentos são observados pelas autoridades monetárias, entretanto seu monitoramento começou a ocorrer com mais detalhes apenas a partir de 2011, quando se iniciaram reportes formais de seu impacto no sistema financeiro mundial. Anualmente o FSB edita relatório de monitoramento global do fenômeno, para medir sua influência no ambiente financeiro e bancário, considerando a volumosa quantidade de operações de crédito que se realizam à margem do sistema bancário regulado. No mais recente relatório[3], expedido em 30.10.2014, começa a se delinear a dimensão exorbitante desse ambiente.

            Então, em que isso importa aos pobres mortais e que relevância esse acontecimento tem na vida das pessoas?

            O fluxo de capitais e ativos deve ser acompanhado não apenas no limite restrito de um país, mas em escala mundial devido o entrelaçamento dos sistemas financeiros e bancários, buscando defender ideal semelhante – por vezes antagônicos entre os países – de estabilidade da moeda local e higidez desses sistemas.

            A quebra da estabilidade de um sistema financeiro, como se deu em 2008, na crise iniciada nos EUA, a partir do colapso dos Bancos Merrill Lynch e Lehman Brothers, é o fantasma que se visa combater com a regulação, utilizando-se seus instrumentos para acompanhar, e em alguns casos intervir, expurgando-se fenômenos que possam causar risco sistêmico.

           Nesse ponto ganha relevo o conceito aqui tratado, pois se em um sistema controlado não se conseguiu evitar catástrofe financeira de dimensão mundial, imagine em um circuito paralelo, onde é negociado volume abundante de ativos, completamente fora da regulação do sistema bancário, mas que impacta diretamente em seu resultado.

            De acordo com o Fundo Monetário Internacional – FMI[4], apenas nos países emergentes os ativos movimentados até 2013 alcançam US$ 7 trilhões, e seu crescimento é muito superior ao de ativos negociados por intermédio das instituições financeiras reguladas. A China aumenta em torno de 20% a cada ano seu volume de negócios no ambiente de Shadow Banking. No Brasil, os ativos nessa seara, cresceram de 25% para 50% do PIB, entre 2002 e 2013.

            Ocorre que um fluxo financeiro dessa magnitude e nessas condições pode abalar a estabilidade financeira mundial, em razão de alterações abruptas não monitoradas, com impactos ainda mais negativos que os experimentados na crise de 2008. Essa perspectiva é tão real que o governador do Bank of England e chefe do FSB, Mark Carney[5], indica que a Shadow Banking nos mercados emergentes será a motriz da próxima crise financeira mundial.

            Faz poucos dias o Banco Nacional da Suíça alterou suas regras de câmbio causando comoção mundial e reviravolta nos mercados financeiro e bancário. Esse movimento ocorreu dentro do sistema bancário formal e foi capaz de alcançar dimensão considerável de operações financeiras. Imagine-se em um ambiente financeiro que se estima ter movimentado US$ 67 trilhões no ano de 2011 sem a devida regulação. Qualquer movimento brusco causaria comoção severa na economia mundial.

            Se esse círculo tem alguma vantagem econômica que possa ser extraída, o tempo trará a resposta, considerando o incipiente conhecimento de seus efeitos concretos no sistema mundial. É certo que a positiva utilização desse nicho financeiro, ou as intempéries que ele poderá trazer, devem ser antecipadas pelo acompanhamento próximo de sua interação com o sistema bancário regulado.

              Não por outro motivo, o Bank of England vem promovendo todo mês de setembro, durante 5 dias, encontro em Londres[6], para integrantes de Bancos Centrais de todo o mundo, visando a troca de experiências e sintonia nos instrumentos regulatórios para o acompanhamento do fenômeno.

            A ocupação com o monitoramento das operações em curso nesse ambiente, como forma de política macroprudencial e gerenciamento de risco, deve ser uma das prioridades das autoridades monetárias, porque ao mesmo tempo em que os negócios em Shadow Banking são naturais e legítimos, seu crescimento apresenta vitalidade jovial, impondo a adequação eficiente dos instrumentos de mapeamento econômico diante deste importante ator no cenário mundial.

Frederico B. Vasconcelos

Procurador do Banco Central

[1]     Eichengreen, BARRY. A Globalização do Capital. Ed. 34.

[2]     Financial Stability Board (http://www.financialstabilityboard.org/).

[3]      Global Shadow Banking Monitoring Report 2014 (http://www.financialstabilityboard.org/wp-content/uploads/r_141030.pdf?page_moved=1)

[4]     http://www.imf.org/external/pubs/ft/gfsr/2014/02/pdf/c2.pdf

[5]     The Economist – http://www.economist.com/news/leaders/21601826-shadow-banks-helped-cause-financial-crisis-better-regulated-they-could-help-avert-next

[6]      http://www.bankofengland.co.uk/education/Documents/ccbs/Prospectus2015.pdf

 

Obs.: Esse artigo não representa a opinião do Banco Central

Assuntos Semelhantes

Comments are closed.